Em 2024, o Forecast Accuracy médio no Brasil foi 66%. Em 2025, foi 65%.
Os números vêm do benchmarking nacional conduzido pela Plannera, que analisou 50 empresas em 2024 e 75 empresas em 2025.
A primeira reação costuma ser automática:
“65% é pouco.”
Mas essa pode ser a pergunta errada.
A pergunta correta talvez seja:
O que significa operar com 65% de Forecast Accuracy?
Porque 65% de acuracidade não é um número neutro. Ele implica, matematicamente, que 35% do volume previsto está deslocado da demanda real, considerando erro percentual absoluto ponderado (WMAPE).
E isso muda completamente a discussão.
Neste artigo, vamos além do número. Vamos entender:
- O que os dados de 2024 e 2025 realmente mostram
- Por que a acuracidade não “salta” estruturalmente
- O que separa erro inevitável de erro evitável
- Como usar Forecast Accuracy no S&OP e no S&OE sem distorcer decisões
- E por que o problema do mercado pode não ser prever mal, mas usar mal a previsão
1- O que os 65% realmente significam
A variação entre o benchmarking de 2024 e o benchmarking de 2025, estatisticamente, é irrelevante.
Isso indica estabilidade estrutural da previsibilidade no mercado brasileiro.
Mas o que significa 65%?
No estudo, o cálculo foi padronizado como:
FA = 1 – WMAPE
(Erro percentual absoluto ponderado pelo volume real, em lag 1)
Ou seja:
- Se FA = 65%
- Então WMAPE ≈ 35%
Isso representa exposição direta a:
- Excesso de estoque
- Ruptura
- Replanejamento de capacidade
- Ajustes emergenciais no S&OE
- Pressão sobre capital de giro
Forecast Accuracy não é número acadêmico.
É medida de exposição ao risco operacional.
2- A grande dispersão: o mercado não é homogêneo
Um dado chama atenção imediatamente:
Em 2025, os resultados variaram de 14% a 96%.
Isso revela algo importante:
O Brasil não tem “um problema médio”. Tem níveis muito diferentes de maturidade e complexidade.
Se o maior FA foi 96% (Saúde Animal) e o menor foi 14% (Insumos Agrícolas), estamos falando de realidades operacionais completamente distintas.
A pergunta então deixa de ser:
“Qual é o FA médio do Brasil?”
E passa a ser:
“Qual é o nível de variabilidade estrutural do seu negócio?”
A) O que é comum entre setores com melhor acuracidade média
De forma geral, os setores que apresentam Forecast Accuracy média mais elevada compartilham alguns elementos estruturais:
- portfólios menos fragmentados
- menor peso de itens com demanda altamente errática
- menor dependência de promoções e eventos pontuais
- ciclos de vida de produto mais longos
Esses fatores reduzem a variabilidade natural da demanda, o que facilita a construção de previsões mais estáveis. Ainda assim, os próprios dados mostram que mesmo nesses setores existe uma diferença relevante entre empresas, indicando que processo e decisão continuam sendo determinantes.
B) O que aparece com frequência nos setores com menor acuracidade
Nos setores com Forecast Accuracy média mais baixa, o padrão é outro. Eles tendem a operar em contextos marcados por:
- portfólios extensos e pulverizados
- alta concentração de SKUs de baixa previsibilidade
- forte influência de promoções, eventos sazonais, campanhas ou contratos
- Distância significativa do consumidor final
Nesses ambientes, a baixa acuracidade não é, por si só, sinal de falha do planejamento. Muitas vezes, ela reflete a própria natureza da demanda. O risco surge quando essa característica não é reconhecida e o forecast passa a ser cobrado como se fosse estável.
3- Por que a acuracidade não dá um salto estrutural?

Seu Forecast Accuracy está acima ou abaixo do mercado? Você pode descobrir!
Participe do maior benchmarking de S&OP do Brasil e saiba onde sua empresa realmente está no ranking.
Mesmo com:
- Ferramentas melhores
- Mais empresas participando
- Processos de S&OP mais difundidos
O FA médio não saiu da faixa 65–66%.
Isso não é fracasso.
É limite estrutural.
Existem três fatores que ajudam a explicar isso.
A) Variabilidade não eliminável
Nem toda variabilidade é erro de processo.
Setores como Insumos Agrícolas apresentaram média de 50% em 2025.
Clima, câmbio, sazonalidade agrícola e volatilidade macroeconômica introduzem variabilidade estrutural.
Forecast não elimina incerteza.
Ele organiza incerteza.
B) Complexidade de portfólio
Em 2024, empresas com até 100 SKUs tiveram FA médio de aproximadamente 83,9%, enquanto empresas acima de 5.001 SKUs ficaram próximas de 51%.
Isso não significa que “portfólio grande é mal gerido”.
Significa que:
- Mais SKUs → mais padrões de comportamento
- Mais interdependência
- Mais esforço analítico diluído
- Maior exposição a eventos específicos
Complexidade amplia erro esperado.
C) Carga de SKUs por analista
Os dados mostram que acima de 500 SKUs por analista a queda de FA pode chegar a 10 p.p..
Aqui existe mecanismo claro:
- Menos tempo por item
- Menor revisão qualitativa
- Menor capacidade de detectar exceções
Não é modelo estatístico.
É capacidade humana.
4- O erro mais comum: tratar Forecast Accuracy como meta
Esse talvez seja o ponto mais importante.
Forecast Accuracy não deveria ser tratado como meta isolada.
Porque FA é consequência de:
- Variabilidade
- Segmentação
- Complexidade
- Maturidade de processo
Quando o indicador vira meta de cobrança:
- Ajustes manuais aumentam
- Conservadorismo artificial cresce
- Bias se instala
- Aprendizado diminui
O relatório mostra que empresas com FA semelhante lidam de maneira muito diferente com o erro.
O que muda não é o número.
É a governança.
5- Como usar a matriz ABC/XYZ para melhorar o Forecast Accuracy (na prática)

Se o mercado opera estruturalmente com 65% de Forecast Accuracy médio, a pergunta não é:
“Como aumentar o FA global?”
É:
“Onde faz sentido exigir maior previsibilidade, e onde não faz?”
É aqui que a matriz ABC/XYZ deixa de ser ferramenta teórica e passa a ser instrumento decisório.
Primeiro: o que a matriz ABC/XYZ realmente organiza?
A segmentação combina duas dimensões:
ABC → impacto financeiro (volume, receita ou margem)
XYZ → comportamento da demanda (variabilidade)
Isso cria 9 quadrantes possíveis.
O erro conceitual mais comum é cobrar a mesma acuracidade para todos.
Isso é tecnicamente incorreto.
Segundo: o problema que a matriz resolve
Quando você mede Forecast Accuracy agregado:
- O erro dos itens A/X se dilui
- O ruído dos itens C/Z distorce percepção
- O time tenta melhorar tudo ao mesmo tempo
- O esforço analítico é mal distribuído
A consequência?
Muito esforço onde o impacto é baixo.
Pouco esforço onde o impacto é alto.
Terceiro: Como aplicar a matriz ABC/XYZ para melhorar o forecast
Passo 1 — Calcule ABC pelo impacto real
Classifique SKUs por:
- Receita anual
- Volume movimentado
- Margem (idealmente)
Itens A devem representar ~70–80% do impacto.
Não é regra fixa, é diretriz.
Passo 2 — Classifique XYZ pela variabilidade
Use coeficiente de variação (CV):
- X → baixa variabilidade
- Y → média variabilidade
- Z → alta variabilidade
Aqui está o ponto crítico:
Itens Z não têm erro alto porque o forecast é ruim.
Eles têm erro alto porque são estruturalmente voláteis.
Passo 3 — Defina expectativa de Forecast Accuracy por quadrante
Depois de segmentar a demanda, o próximo passo é ajustar expectativas por perfil, não aplicar uma meta única para todos os itens.
De forma ilustrativa (não como regra universal), poderíamos ter:
- A/X → maior expectativa de previsibilidade
- A/Y → expectativa intermediária
- A/Z → foco em mitigação de risco, não em perfeição
Perceba:
O ponto central não é atingir “80%” ou qualquer valor fixo.
Você para de perseguir acuracidade média.
Você passa a perseguir eficiência alocativa de esforço.
Quarto: qual é a conexão com os dados do benchmark e o impacto direto no S&OP e no S&OE?
Os relatórios mostram que empresas com portfólio grande tendem a ter menor FA médio.
Isso não significa que planejam pior.
Significa que possuem maior proporção de itens Y e Z.
Sem segmentação:
- Acuracidade média parece ruim
- Mas o erro pode estar concentrado em itens de baixo impacto
A matriz ABC/XYZ permite revelar isso.
Quando você leva a matriz para o ciclo de S&OP:
- Demand Review foca A/X e A/Y
- Supply Review analisa risco concentrado
- Executive não discute SKU irrelevante
O fórum sobe de nível.
No curto prazo, no S&OE:
- Itens X → replanejamento mínimo
- Itens Z → monitoramento contínuo
Você para de reagir a ruído.
6- O que realmente melhora o Forecast Accuracy?
Não é apenas algoritmo melhor.
É:
- Segmentação correta
- Expectativa coerente por perfil
- Alocação de esforço analítico
- Governança diferenciada por criticidade
A matriz ABC/XYZ não melhora previsão sozinha.
Ela melhora decisão.
E decisões melhores reduzem erro evitável.
7- Forecast Accuracy não explica tudo
Forecast Accuracy mede distância média do realizado.
Mas não explica:
- Se erro foi concentrado
- Se erro foi estrutural
- Se houve ruptura
- Se houve viés sistemático (Bias)
Bias, por exemplo, é medido removendo o módulo do erro percentual.
Uma empresa pode ter 65% de FA com viés zero.
Outra pode ter 65% com forte otimismo estrutural.
Os impactos são completamente diferentes.
8- Diferenças entre o forecast no S&OP e forecast no S&OE
Um dos erros mais recorrentes na governança do planejamento é usar o forecast da mesma forma em todos os fóruns de decisão.
Mas S&OP e S&OE operam em horizontes, granularidades e níveis de risco completamente diferentes e, por isso, deveriam tratar a previsão de maneira diferente.
No S&OP, cujo horizonte normalmente cobre de 12 a 24 meses e trabalha em nível mais agregado (família, canal ou linha de produto), o forecast não deveria ser visto como um número a ser “corrigido”, mas como uma referência para decisão.
Ele serve para estruturar discussões sobre capacidade produtiva, posicionamento de estoque, exposição financeira e cenários de risco.
Nesse contexto, o erro é esperado. O papel do processo não é eliminá-lo, mas absorvê-lo por meio de decisões coerentes de capacidade, cobertura e priorização.
Já no S&OE, o horizonte é muito mais curto (semanas ou poucos meses) e a granularidade é maior. Aqui, a previsão passa a ser apenas um dos insumos. Ela é combinada com sinais reais da operação, como pedidos confirmados, consumo observado e restrições operacionais.
O foco deixa de ser “quanto o forecast acertou” e passa a ser “como ajustar o plano diante do que está acontecendo agora”.
O problema surge quando esses dois fóruns usam o forecast da mesma maneira.
Quando o S&OP começa a discutir desvios de curto prazo como se fossem falhas estratégicas, ou quando o S&OE tenta reescrever constantemente o plano estrutural, o resultado é previsível:
- replanejamento contínuo,
- instabilidade decisória,
- excesso de ajustes manuais,
- desgaste do processo.
Forecast imperfeito não é o vilão.
O desalinhamento entre horizonte, granularidade e uso da previsão é.
Empresas mais maduras entendem que o forecast cumpre papéis distintos em cada camada do planejamento.
No S&OP, ele organiza o futuro provável. No S&OE, ele é ajustado pela realidade imediata. Confundir essas funções transforma variabilidade natural em ruído organizacional.
8- O que os dados realmente ensinam
Os dados de 2024 e 2025 mostram que:
- O Brasil opera estruturalmente entre 65–66% de FA
- A dispersão é alta (14%–96%)
- Complexidade impacta previsibilidade
- Capacidade analítica influencia resultado
- Não houve salto estrutural
Mas o principal aprendizado é outro:
O problema não é conviver com 35% de erro. O problema é fingir que ele não existe.
Empresas maduras:
- Segmentam demanda (ABC/XYZ)
- Diferenciam erro estrutural de erro evitável
- Usam FA como medida de exposição
- Integram forecast com decisão
- Não transformam previsão em sentença
Conclusão: prever melhor ou decidir melhor?
Forecast Accuracy no Brasil não está “quebrado”.
Ele está refletindo a complexidade real do ambiente.
A pergunta estratégica não é:
“Como sair de 65% para 80%?”
A pergunta é:
“Nossa estrutura decisória foi desenhada para operar com 35% de erro?”
Porque previsão perfeita não existe.
Mas decisão madura existe.
E é isso que diferencia empresas que apenas medem de empresas que realmente planejam.

